Se você gosta de França, história, arquitetura e paisagens, provavelmente já ouviu falar dos famosos castelos do Vale do Loire.
Eu mesma tinha muita vontade de conhecer a região há anos. Por isso, quando organizei minha viagem à França em agosto de 2026, decidi reservar alguns dias para finalmente visitar alguns desses castelos.
Escolhi Tours como base, aluguei um carro em Paris e conheci três castelos durante essa parte da viagem: Maintenon, Chenonceau e Amboise.
Neste artigo, vou contar minha experiência.
E já começo com uma pequena surpresa: o castelo de que mais gostei nem fica exatamente no Vale do Loire.
Mas antes, um pouco de história:
Por que existem tantos castelos no Vale do Loire?
O Vale do Loire está localizado na região central da França e é conhecido por reunir uma enorme quantidade de castelos, palácios e antigas residências aristocráticas.
A região ganhou especial importância durante a Renascença (séculos 14 a 16), quando reis franceses e membros da corte passaram a construir, ampliar e transformar residências ao longo do rio Loire — o mais extenso da França — e de seus afluentes.
Hoje, os châteaux de la Loire são uma das grandes atrações turísticas da França — e não existe apenas um roteiro possível.
Há castelos enormes e mundialmente conhecidos, outros menores, fortalezas medievais, residências renascentistas e propriedades profundamente marcadas pelas pessoas que viveram nelas.
Na minha viagem, percebi justamente isso: quando a visita é bem construída, você começa a conhecer as pessoas que passaram por aqueles espaços — e foi essa parte que mais me interessou.
Château de Maintenon: a grande surpresa

Antes de falar propriamente do Vale do Loire, preciso fazer um pequeno desvio geográfico.
O Château de Maintenon não faz parte dos castelos do Vale do Loire.
Ele fica no vale do Eure, não muito longe de Chartres — outra cidade charmosíssima que tive o prazer de conhecer nesta viagem.
Maintenon entrou no meu roteiro por uma razão muito simples: eu estava de carro.
Peguei o carro em Paris para seguir em direção a Tours, e descobri que Maintenon ficava praticamente no meu caminho. Resolvi parar.
E ainda bem que parei.
Foi justamente o fato de estar de carro que me permitiu conhecer um castelo que provavelmente não entraria no meu roteiro se eu estivesse fazendo toda a viagem de trem.
Para minha surpresa, Maintenon acabou sendo o castelo de que mais gostei durante a viagem.
Madame de Maintenon: uma mulher extraordinária

Parte do meu encantamento veio da história de Françoise d’Aubigné, a Madame de Maintenon.
Ela teve uma trajetória absolutamente improvável. Ficou viúva ainda jovem, tornou-se governanta dos filhos de Luís XIV com Madame de Montespan, aproximou-se progressivamente do rei e comprou o domínio de Maintenon em 1674. Após a morte da rainha Marie-Thérèse, Françoise e Luís XIV se casaram secretamente, em 1683.
Ou seja: quando digo que descobri ali a história de uma espécie de “quase rainha da França”, é nesse sentido. Ela se tornou esposa do Rei-Sol, mas nunca foi rainha e o casamento não lhe conferiu esse título.
Além disso, Madame de Maintenon tornou-se uma figura muito próxima e influente junto a Luís XIV.
O castelo conserva ambientes relacionados a ela, incluindo seu quarto e pequeno oratório, além de espaços de períodos posteriores. Nos jardins ainda estão os vestígios do enorme aqueduto cuja construção foi supervisionada por Vauban a pedido de Luís XIV para levar água até Versailles — projeto que nunca chegou a ser concluído.
Eu cheguei a Maintenon sem grandes expectativas e saí completamente encantada.

Château de Chenonceau: um sonho realizado
Se Maintenon foi a surpresa, Chenonceau foi a realização de um sonho.
Era um dos castelos que eu mais queria conhecer.
E há uma curiosidade geográfica interessante: apesar de ser um dos mais famosos castelos do Vale do Loire, Chenonceau não fica sobre o rio Loire. O castelo atravessa o rio Cher, um afluente do Loire.
A imagem do château refletido sobre a água é justamente uma de suas características mais conhecidas.
Chenonceau, o “castelo das mulheres”

O que tornou minha visita especialmente interessante foi conhecer melhor a história das mulheres que moldaram Chenonceau.
O próprio castelo é conhecido como Château des Dames.
Ao longo dos séculos, diversas mulheres participaram de sua construção, transformação, administração e preservação. Entre elas estão Katherine Briçonnet, Diane de Poitiers, Catherine de Médicis, Louise de Lorraine e Louise Dupin.
Mas duas personagens dominam boa parte dessa história: Diane de Poitiers e Catherine de Médicis.
Diane era a favorita do rei Henri II, que lhe deu Chenonceau. Foi ela quem criou seu famoso jardim e mandou construir a ponte sobre o Cher.
Do outro lado dessa história estava Catherine de Médicis: esposa de Henri II e, portanto, rainha da França.
Depois da morte do rei, em 1559, Catherine afastou Diane de Chenonceau, assumiu o castelo e continuou a transformá-lo. Posteriormente, a galeria construída sobre a ponte ajudaria a formar a silhueta que reconhecemos hoje.
E a rivalidade deixou até uma curiosidade incrível para quem visita o château.
Um H, dois Cs… ou um D?

Em diferentes partes do castelo encontramos o monograma de Henri II e Catherine de Médicis, formado pelo H do rei entrelaçado aos dois Cs de Catherine.
Mas, visualmente, o desenho também pode formar um D.
D de… Diane.
Quando descobri isso durante a visita, fiquei fascinada — e, claro, fotografei a insígnia.
É um daqueles pequenos detalhes que fazem a história deixar de parecer uma sucessão distante de reis e datas. De repente, você está olhando para as marcas que aquelas relações deixaram no próprio edifício.
Dois jardins para duas mulheres
A presença das duas também continua do lado de fora.
Chenonceau possui um Jardin de Diane de Poitiers e um Jardin de Catherine de Médicis, cada um com sua própria composição. O jardim de Diane é o maior dos dois, enquanto o de Catherine é menor e fica voltado para a fachada oeste do castelo.
Achei muito interessante caminhar pelos dois sabendo quem eram aquelas mulheres e qual era a relação entre elas.
E aqui entra uma dica que, para mim, fez muita diferença:
pegue o audioguia.
Foi ele que transformou a visita em uma narrativa e me fez perceber detalhes que provavelmente passariam despercebidos se eu simplesmente percorresse as salas lendo placas.
Chenonceau não foi apenas bonito. Foi uma experiência viva.
Château Royal d’Amboise: uma experiência diferente

O terceiro castelo que visitei foi o Château Royal d’Amboise.
Amboise tem enorme importância histórica. Foi uma residência real importante durante o Renascimento e está diretamente associado a personagens como François Ier e Leonardo da Vinci.
Leonardo passou os últimos anos de sua vida na região de Amboise e sua sepultura encontra-se hoje na Chapelle Saint-Hubert, dentro do domínio do Château Royal d’Amboise.
E aqui entra uma opinião muito pessoal: achei Amboise ok.
Bonito? Sim.
Historicamente importante? Sem dúvida.
Mas, depois da experiência que tive em Maintenon e Chenonceau, não me envolveu da mesma maneira.
Para mim, há uma energia muito mais masculina na narrativa de Amboise, ligada à monarquia, aos reis e à corte. Além disso, achei a visita bastante baseada em informações que precisam ser lidas durante o percurso.
O château oferece atualmente visita livre, material de apoio e HistoPad, além de visitas guiadas. Mas, na minha experiência, senti falta daquela narrativa envolvente que encontrei em Chenonceau.
É também uma boa demonstração de como dois castelos da mesma região podem proporcionar experiências completamente diferentes.

E o Clos Lucé?
Quando organizei meu passeio por Amboise, imaginei que conseguiria visitar o Château Royal e depois seguir para o Clos Lucé, onde Leonardo da Vinci viveu seus últimos anos.
Na prática, percebi que tinha subestimado o passeio.
Eu já estava cansada, ainda teria uma visita considerável pela frente e o ingresso para o Clos Lucé custava em torno de 20 euros.
Preferi não pagar para entrar e fazer tudo correndo simplesmente para dizer que tinha ido.
E aí entra uma dica importante para quem estiver planejando um roteiro pelo Vale do Loire: não tente encaixar castelos demais no mesmo dia.
Eles parecem próximos no mapa, mas cada visita demanda tempo. Há os interiores, os jardins, as exposições, os deslocamentos — e chega uma hora em que seu cérebro simplesmente não quer mais saber qual François casou com qual Catherine. 😂
O Clos Lucé ficou, portanto, para uma próxima viagem.
Vale a pena alugar carro para conhecer o Vale do Loire?

Pela minha experiência, sim.
Foi justamente o carro que me deu liberdade para organizar os dias no meu ritmo e, principalmente, fazer descobertas fora do roteiro original.
Maintenon é o melhor exemplo disso.
Eu peguei o carro em Paris e seguiria para o casamento para o qual fui convidada e depois para Tours. Como o Château de Maintenon estava no caminho, consegui incluí-lo no percurso — e ele acabou se tornando meu castelo preferido da viagem.
De transporte público, provavelmente eu jamais teria feito essa parada.
Ter um carro também facilita bastante a circulação entre cidades, vilarejos e castelos espalhados pela região.
Onde ficar para conhecer os castelos do Vale do Loire?
Eu escolhi Tours como base e gostei bastante da decisão.
Em vez de ficar em hotel, aluguei um quarto na casa de uma francesa. Para mim, isso trouxe uma vantagem adicional: pude conversar bastante em francês e ainda receber dicas de alguém que realmente conhece a região.
E foi ela quem me falou de uma experiência que entrou imediatamente na minha lista para uma próxima viagem: conhecer o Vale do Loire de bicicleta.
Existe, de fato, toda uma rota estruturada chamada La Loire à Vélo, com cerca de 900 quilômetros de itinerário ciclável, passando por cidades, vilarejos, paisagens naturais e patrimônios históricos da região.
Não estou planejando pedalar 900 quilômetros, calma. 😂
Mas fazer alguns trechos margeando o Loire e parar pelo caminho para conhecer castelos? Isso eu fiquei com muita vontade de fazer.
Qual castelo do Vale do Loire eu mais gostei?

Aqui temos um pequeno problema: tecnicamente, meu favorito não está no Vale do Loire.
Meu ranking pessoal dessa viagem seria:
1. Maintenon: a grande surpresa. Adorei o castelo e fiquei fascinada pela história de Madame de Maintenon.
2. Chenonceau: o sonho realizado. É lindíssimo, mas foi principalmente a história das mulheres ligadas ao château que tornou a experiência especial para mim.
3. Amboise: historicamente muito interessante, mas foi o que menos me envolveu dos três.
Nesta viagem, percebi que o castelo mais famoso nem sempre será aquele que mais vai tocar você.
Às vezes, é justamente aquele que aparece inesperadamente no caminho.
Conhecer a França também é aprender francês
Viajar pela França sempre me lembra por que aprender um idioma vai muito além de conseguir pedir uma informação ou fazer um pedido em um restaurante.
Foi falando francês que conversei com a anfitriã em Tours, recebi dicas da região, acompanhei as histórias durante as visitas e consegui compreender melhor as personagens que fizeram parte daqueles lugares.
Na Chez Nanô, é justamente essa relação entre língua e cultura francesa que buscamos levar para as aulas.